Em Moçambique, o primeiro contacto dos alunos com a Química ocorre no Ensino Primário, no âmbito da disciplina de Ciências Naturais, onde são adquiridos, de forma integrada, conhecimentos de Química, Física e Biologia.
Contudo, é no Ensino Secundário Geral (ESG), especificamente a partir da 8ª classe, que a Química se estabelece como uma disciplina autónoma. Neste nível, os alunos aprofundam os conceitos fundamentais da área, iniciando pela sua própria definição e avançando para o estudo de substâncias, misturas, entre outros temas essenciais. O presente texto propõe uma análise crítica da definição de Química apresentada nos manuais desta classe.
1. Definições de Química nos Livros Didácticos
Os manuais do ESG são elaborados com base nos programas de ensino, que constituem os instrumentos orientadores do processo de ensino-aprendizagem. De acordo com o Programa de Ensino de Química da 8ª Classe (PEQ8), as sugestões metodológicas da primeira unidade temática indicam que:
"... o professor define a Química como a ciência que estuda as substâncias e as suas transformações."
Baseando-se nesta orientação, os autores dos manuais definem a Química da seguinte maneira:
• Livro 1: "A Química é uma ciência que estuda as substâncias materiais, as suas transformações e aplicações" (Ernesto e Barros)
• Livro 2: "A Química é a ciência que estuda as substâncias e as suas transformações" (Camuendo e Cocho, 2008)
• Livro 3: "Química é uma ciência que estuda as substâncias e as suas transformações" (Afonso e Domingos, 2022).
Observa-se que os autores seguiram rigorosamente a recomendação do PEQ8, apresentando definições praticamente idênticas entre si.
2. Análise Crítica da Definição
Embora recomendada pelo PEQ8, a definição apresentada nos manuais mostra-se incompleta e conceptualmente restrita, pelos seguintes motivos:
a) Limitação do Objecto de Estudo
A definição oficial restringe a Química às substâncias puras. Se aceitarmos esta premissa com rigor científico, as misturas - que compõem a vasta maioria dos materiais ao nosso redor — ficariam, teoricamente, fora do âmbito de estudo desta ciência. Ao definir a Química pela parte (substância) e não pelo todo (matéria), o PEQ8 e os autores ignoram a classificação fundamental onde substâncias e misturas são, ambas, formas de existência da matéria.
b) Contradição Didáctica e Sistémica
Existe uma divergência entre a definição inicial e o conteúdo programático. Os manuais dedicam boa parte do conteúdo às "Misturas e Métodos de Separação", o que pode gerar confusão no aluno: se a Química é apresentada estritamente como a "ciência das substâncias", o estudo das misturas surge como um corpo estranho ao conceito nuclear da disciplina.
3. Sugestão de Reformulação da definição
Para que haja harmonia entre a definição da ciência e o que é efectivamente ensinado nos capítulos subsequentes, sugere-se a adopção de uma definição mais abrangente e unificadora:
"A Química é a ciência que estuda a Matéria (substâncias e misturas), a sua composição, propriedades e as transformações que ela sofre."
4. Conclusão
Em suma, a análise efectuada permite concluir que existe uma dependência acentuada dos livros didácticos em relação às directrizes do PEQ8, resultando numa definição que carece de rigor lógico ao não incluir as misturas na sua base conceptual. Recomenda-se uma actualização na abordagem didáctica que coloque a Matéria como o objecto central de estudo, garantindo que a teoria inicial esteja em perfeita sintonia com a prática científica e os conteúdos leccionados ao longo do ano lectivo.
5. Bibliografia
AFONSO, Amadeu e DOMINGOS, Ernesto. Q8 – Química 8ª Classe. 2ª Edição. Texto Editores, Maputo, 2022.
BARROS, José António P e ERNESTO, Miguel Mussa. Livro do Aluno - Química - 8.ª Classe. Plural Editores, Maputo, 2022.
CAMUENDO, Ana Paula e COCHO, Estêvão Bento, Saber Química, 1a Edição, Maputo, Longman Moçambique, 2008
INSTITUTO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO DE EDUCAÇÃO-MINED. Programa de ensino de Química da 8a classe. MEC-INDE. Maputo. Moçambique, 2010
Por: Miguel Pascoal

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